Aparelhos Auditivos Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Minha esposa é surda, meu marido é surdo: como ajudar?

*Escrito por Danielle Kraus Machado

A rotina de um casal no qual ele é ouvinte e ela tem deficiência auditiva (ou vice-versa, e ele/ele e ela/ela) tem seus momentos cômicos e trágicos, e também muita parceria. Eu tenho surdez moderada, uso aparelhos auditivos, e meu esposo ouve muito, mas muito bem (de dar inveja às vezes). Hoje vou explicar como nos ajudamos no dia a dia e listar algumas dicas no quesito surdez e convivência. 

Um relacionamento onde um escuta e o outro não, precisa de paciência, empatia e ajuda.

Sabemos que mesmo com aparelhos auditivos ou implantes, não são todos que conseguem falar ao telefone, ouvir a campainha, o apito do forno ou microondas, ou ter uma conversa sem fazer leitura labial. Nesses casos são necessárias a empatia e a paciência. Empatia, para entender que não é culpa da pessoa ela não ter escutado algum som, e paciência, se for necessário repetir ou falar mais devagar. 

Mas a parte de ajudar não significa fazer tudo pelo cônjuge surdo sempre!

Meu esposo às vezes liga para a pizzaria, mas outras vezes, me fala “Eu sei que você consegue. Liga lá! Se não conseguir, me fala”. E isso de certa forma é uma ajuda pois ele está me motivando e relembrando que: não, eu não estou mais presa naqueles longos anos em que era impossível usar telefones e tinha pavor deles! Ele sabe que ultimamente consigo fazer ligações com os aparelhos auditivos e conexão bluetooth, e fico realizada com isso. Desse modo, ele me incentiva a usar cada vez mais os AASIs.

Então, ajudar sua esposa surda nem sempre é ouvir por ela, mas também, lembrá-la do que ela é capaz com os “ouvidos a pilhas” e sendo uma Surda Que Ouve com a tecnologia! Assim, nós que usamos dispositivos para ouvir, precisamos treinar os ouvidos e o cérebro para cada dia ir um pouquinho além, e ter incentivo faz toda a diferença. É gratificante o sentimento de recompensa por um novo som que escutamos e entendemos, em vez de simplesmente jogar toda a responsabilidade no ouvido do outro, o que pode ser muito desanimador. 

Algumas dicas para colocar em prática já, com sua esposa ou esposo surda(o):

  • Divida a responsabilidade de ouvir e de ser ouvido: não espere que seu parceiro(a) com surdez sempre vá até o lugar em que você está para poder te ouvir, vá até ele(a) também para falar. A culpa da surdez não é de nenhum dos dois, se cada um levantar para ir falar com o outro de vez em quando, ninguém se cansa. Ficar gritando de outro cômodo não funciona. 
  • Não tente esconder a surdez de sua parceira(o), se ele(a) gosta de mostrar os aparelhos ou implantes, falar sobre o assunto, demonstre apoio, e que isso não interfere no sentimento de vocês. Sempre que possível, fale do orgulho pelos aparelhos/implantes que o ele(a) usa, pois é através desses pequenos dispositivos que boa parte da comunicação de vocês acontece, que o “eu te amo”, ou “Cheguei!” é ouvido e respondido. (Hoje tenho zero vergonha, e até já tive meu aparelho “levantado” da minha orelha quando estava distraída, e quando vi, era meu marido mostrando para outra pessoa, só faltou ele mesmo tirar da minha orelha!) 
  • Não deixe de compartilhar com ela(e) os vídeos e conteúdos que você gostou pelo Facebook, Instagram, só porque não tem legenda: quando estiver ao lado, traduza o que é dito ou cantado, permitindo a leitura labial. Aquele vídeo engraçado, emocionante ou curioso que você achou legal, ajude sua esposa ou esposo a entender, não “deixe pra lá” só porque ela(e) não escuta. 
  • Escolha filmes e seriados sempre com legendas. Parece tão simples para ouvintes, mas para nós faz toda a diferença. Se necessário, coloque um post it na TV ou no controle remoto para lembrar. 
  • Paciência redobrada em praias ou piscinas: não existe aparelho auditivo à prova d’água (para implante coclear, existem capas de proteção). Então, uma dose extra de paciência e empatia nesses dias para repetir quantas falas forem necessárias, afinal, para nós também é difícil ficar sem ouvir.

 

  • Incentive o cônjuge a ouvir e tentar algo novo com a audição. Por exemplo, é sempre o ouvinte que faz o pedido ao garçom, por causa do barulho no restaurante? Tentem ir a um local mais silencioso para inverter os papéis. Incentive o uso dos aparelhos/implantes e elogie a tentativa!

Se um ouvinte faz absolutamente tudo pela pessoa com surdez, pode passar a mensagem de que ela não é capaz de nada, não é? Em algumas situações a surdez tem lá os seus impedimentos, mas usando tecnologias para ouvir e fazendo treinamento auditivo é que descobrimos se estamos melhorando. 🙂

Assim como uma pessoa cega não precisa de auxílio, um braço para segurar o dia inteiro todo dia (se precisar, irá pedir), uma pessoa surda também não deve ser tratada como incapaz, com alguém fazendo tudo o que precisa de audição por ela. Esse comportamento desanima. A dosagem certa de ajuda e de permitir a individualidade do outro é que constrói um relacionamento saudável. 

Não podemos esperar que o mundo todo se adapte à nossa surdez, e nem esperar que consigamos ter um entendimento de 100% porque isso nem ouvintes possuem. Devemos buscar o equilíbrio ao fazer um esforço a cada dia para ouvir o outro e sermos ouvidos, para termos um relacionamento onde a surdez só tem espaço para os momentos cômicos, e não trágicos!

Seja o primeiro a amar.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

1 Comentário

  • Parabéns por este trabalho lindo! Os surdos precisam de incentivos para crescerem e superarem o preconceito e provarem que têm potencial! Você é um exemplo! Tenho uma filha surda e também superou muitos obstáculos! Ela é oralizada e se formou em psicologia! E já fez um vídeo sobre depressão uma doença que atinge muitas pessoas inclusive muitos surdos! O nome dela é Gabriella Roma de Andrade gostaria de te conhecer e que você conhecesse a Gabi para trocarem experiências e incentivaram muitos surdos que todo sonho é possível de ser conquistado! Que Deus te abençoe e sucesso na sua trajetória ?

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