Meu nome é Gilson e tenho hoje 70 anos de idade! Que eu me lembre, minha surdez começou por volta dos 10 anos de idade e progressivamente foi ganhando espaço e pautando meu comportamento e de todos os que se relacionavam comigo.
Aos dezoito anos eu já tinha uma perda de mais ou menos 65db e passei a usar AASI, que não resolvia o problema de comunicação, apenas ajudava e irritava, pois conforme o grau de perda auditiva aumentava, a amplificação dos sons tornava o ouvir desconfortável pela amplificação de todos os ruídos – transformando em um caos o ato de ouvir!
A adolescência
Minha adolescência e juventude foram marcadas por minha luta para superar o preconceito e as barreiras que a surdez me impunha para estudar, trabalhar, tentar namorar e me relacionar com os outros. Não tive namoradas na adolescência e amigos eram poucos, pois ter amigos era arriscar-se amiúde a constrangimentos devido à surdez.
Bullying e agressividade
Em minha adolescência sofri algumas tentativas de bullying, que só não se concretizavam devido à agressividade que desenvolvi como uma autodefesa, mas ainda assim, me incomodava perceber que só não riam quando eu não ouvia algo dito por temor de minha reação.
Era cansativo ter que estar alerta o tempo todo para ouvir e compreender o que estava sendo dito. Algumas vezes envolvi-me em brigas por este motivo, pois eu sempre confrontava rispidamente o interlocutor ao notar um ar divertido em sua expressão por uma falha auditiva minha. Enfim, ser surdo é viver em ambiente hostil, era assim que eu via e sentia na época.
Juventude e luta armada
Por esta época, uma autoridade com quem tive contato ofereceu conseguir para mim aposentadoria devido à surdez, que prontamente e horrorizado recusei. Aos 22 anos de idade, ingressei na luta armada contra a ditadura, sob os protestos de alguns companheiros que achavam impossível um surdo na luta armada, ofereceram-me que eu desse apoio “administrativo”, que recusei sob a justificativa de que me viraria durante os confrontos. E assim foi.
Vida independente
Após sair da prisão comecei a me preparar melhor para enfrentar a vida do ponto de vista profissional; estudei, formei-me e trabalhei a vida toda, mesmo com o grau de surdez aumentando de ano a ano. Sempre levei uma vida independente do ponto de vista econômico, trabalhando e me mantando desde os catorze anos de idade, mantendo minha casa e a de minha mãe.
Embora não fosse este meu intuito, provei que a deficiência de uma pessoa é apenas a falta de um dos sentidos ou de condição física, e não de falta de competência ou eficiência. Podemos ser independentes quase sempre. Gosto muito de viajar e o fiz muitas vezes, sempre sozinho, que surdo não gosta de companhia por ser cansativo estar sempre atento aos que falam. Viajei principalmente pela Amazônia, mas também para Colômbia, Venezuela e Bolívia.
O silêncio
Nos últimos dez, quinze anos antes do implante, eu praticamente não tinha mais audição, com a perda chegando a 90/95db. Eu dependia totalmente da leitura labial, e fazia uso de todo e qualquer indicio aproveitável para tentar descobrir o que meu interlocutor dizia, como gestos, semblante, objetos tocados, direção de seus olhos, etc.
Nesta luta sem trégua eu defendia minha independência, mantendo-me ativo profissionalmente e conseguindo ser respeitado pelo trabalho feito. Música, que eu tanto gostava, já há mais de vinte anos eu não ouvia, meu gosto musical estacionou nos últimos anos em que ainda podia ouvir.
Implante Coclear
Em 2008 fiz o Implante Coclear! Foi a redenção, a glória, voltar a ouvir como nos tempos de criança (quase)! Poder conversar descontraidamente, sem buscar sofregamente as palavras nos lábios que falam, ouvir e entender a pessoa que está às minhas costas, falar ao telefone e, ó sublimidade, voltar a ouvir música, inteirar-me das novas tendências musicais, poder ir ao teatro! Enfim, viver plenamente! 🙂
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