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Ah, o telefone. Se quem ouve já não é muito fã dele nos dias de hoje, imagina quem não ouve direito. Particularmente, acho uma perda de tempo e $$ ficar batendo papo no telefone, especialmente quando se trata de trabalho. Pô, manda um email, um SMS, chama no MSN, não tem mistério.
Quando comecei a trabalhar, em 2002, já cheguei avisando: “não falo no telefone e ponto final“. Nunca vi sentido algum em tentar me ‘obrigar’ a fazer algo que está, sim, além das minhas possibilidades. Não tive problemas a esse respeito no trabalho, pelo contrário, ninguém jamais me pediu para ‘fazer um esforço’ – e também, se pedissem, tenho até medo da resposta que eu daria.
Acho que pedir para um funcionário com deficiência auditiva para ‘fazer um esforço’ e falar no telefone é o mesmo que pedir para um funcionário que usa muletas a ‘fazer um esforço’ e dar um jeitinho de subir as escadas!
Infelizmente, sei quem nem todas as pessoas que lêem este blog têm a mesma sorte nos seus respectivos empregos. O que noto, em muitos casos, é um misto de vergonha com medo de conversar com a chefia e expor a situação.
Se não houvessem maneiras de contornar esse ‘lapso de comunicação’…mas hoje em dia, são muitos os modos de se comunicar com alguém além do telefone. Leiam o caso abaixo e manifestem-se nos comentários, por favor!
Depoimento de um leitor
“Meu nome é Ricardo, tenho 25 anos e moro em São Paulo. Já sou leitor do Crônicas há alguns meses e sempre gosto muito das coisas que leio aqui, mas só hoje acabei tomando a decisão de te escrever para que você conheça mais um de seus leitores.
Eu comecei a ter uma perda auditiva nos dois ouvidos quando tinha cerca de 14 anos, ou seja, quando todas as coisas interessantes da fase de pré-adolescência estavam começando a acontecer. Nenhum dos médicos que fui soube me dizer com 100% de certeza qual foi a razão desta perda. Existem mais casos na família, uns dizem que pode ser sequela de uma meningite que tive aos 6 anos e um médico, o meu preferido, me disse que a causa da perda só poderia ser descoberta post mortem, através de uma autópsia.
Gentilmente, agradeci o tempo dele e prometi que a primeira coisa que faria antes de começar a usufruir da vida boa do paraíso e da eternidade seria voltar ao seu consultório para uma consulta e esperada definição do diagnóstico pendente. Aí eu vou ficar show!! rsrsrs…
Embora tente levar tudo isso com bom humor (do tipo que responde com voz de lobo mau “É para te ouvir melhor minha netinha“, toda vez que uma criança pergunta o que são essas coisinhas nos meus ouvidos), tenho que ser sincero ao dizer que ainda sofro muito com isso em silêncio. Claro, que existem um monte coisas ao meu favor, como a possibilidade de ter aparelhos auditivos, apoio dos amigos e da família e a chance de tentar levar uma vida o mais normal possível.
Infelizmente, quando eu li o post sobre o advogado, acabei me dando conta que realmente talvez a parte mais díficil de tudo isso seja em relação à vida profissional. A cobrança que recebemos na nossa vida profissional acaba tornando as coisas muito difíceis às vezes e isso é o que têm mais me machucado ultimamente.
Sou formado em Administração de Empresas e estou concluindo meu MBA em Gestão. Falo Inglês e Espanhol fluentemente e há quase 5 anos trabalho em área de suporte do departamento comercial em empresas de tecnologia da informação.
Gosto de ser o mais independente possível para fazer de tudo e também já me aventurei em ir sozinho para os EUA e a Europa para estudar ou passear, mesmo com minha perda no melhor estilo audiometria com turbina de avião, rsrs.
Por trabalhar em multinacionais, estou sempre conversando em inglês ou espanhol por email, mas existe um problema enorme nos momentos de ter que conversar por telefone. Por causa da minha perda, aos anos fui virando expert em leitura labial, então, preciso juntar o que chega do som com essa leitura labial para poder entender as pessoas. Assim, você já imagina como deve ser difícil conseguir entender um gringo nervoso no telefone falando em espanhol ou inglês e você sem conseguir entender muita coisa.
Uma vez, li em um livro escrito pelo ator Michael J. Fox (que possui mal de Parkinson) que a justificativa dele para parar de gravar uma série de TV logo após a descoberta da doença era a de que ele era uma pessoa com mal de Parkinson interpretando uma pessoa que não tinha mal de Parkinson. Isso ficou na minha cabeça, porque realmente não há como eu ter esta perda auditiva e sair aí pelo mundo como se fosse um ouvinte normal.
Depois de um tempo de negação, de fossa de cortar os pulsos e de vontade de abrir um buraco e de se esconder dentro, acho que acabei aprendendo que realmente se quiser ser feliz nos anos que me restam da minha vida, terei que aceitar minha condição e fazer o melhor que posso com o que tenho.
Por isso que o post do advogado me chamou a atenção: realmente não sei até quando conseguirei ser cobrado para falar em Inglês e Espanhol ao telefone, já que é algo que já não consigo fazer direito, embora me sinta totalmente capaz para fazer outras atividades com responsabilidade, organização e perfeição.
Em algum tempo, para mudar isso, quero ir para outro emprego e me adaptar melhor a essa minha “nova situação”, já que é algo que me sinto cada vez menos capaz de fazer. Acho uma porcaria levar a vida, achando que poderia ser muito mais feliz, mas que não me arrisco por medo. Medo de ficar desempregado, medo do julgamento das pessoas, medo de se sentir inferior, etc.
Mas, o que eu quero com todo esse Lusíadas que escrevi para você (tadinha, maior tempão para ler isso, né?)? Quero dizer obrigado por ter criado este site e ter colocado tanta coisa interessante aqui. A perda auditiva sempre faz a gente se sentir sozinho no mundo, até o momento que encontramos pessoas como a gente, que passam pelas mesmas dificuldades e que mesmo involuntariamente ajudam as outras com suas experiências, situações engraçadas e de adaptação.”
E aí pessoal? Como é com vocês no trabalho? Que conselhos vocês têm para dar para o R.?
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