Olha só como o mundo é pequeno. Recebi um email do Gilberto (vocês lembram dele, do post sobre a profissão de Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores) me mostrando um texto super bacana sobre o Paulo Sugai, que é jogador de futebol americano – e claro que eu já conhecia o Paulo, que é leitor do Crônicas. Além disso o Gilberto jogava futebol americano quando morava nos EUA! Segue o texto, pedi que o Paulo nos ajudasse nos termos técnicos em inglês (o original está aqui, no site do Brasília V8).
“Silêncio. O mais absoluto silêncio. Explosão. A mais cmpleta explosão de pessoas correndo e se movimentando, se posicionando, sinalizando. Explosão visual.
Olho para trás, procurando o capitão da defesa. Olho para frente, analisando o wide receiver (recebedor). Novamente, procuro o capitão Pedro D.H., strong safety, aguardando o comando manual que indicará qual jogada será aplicada.
Tudo começou em agosto de 2011, em uma fila da lanchonete de fast-food McDonald’s. Estava eu vestindo uma camisa do time Cincinnati Bengals (#85) quando fui abordado por dois indivíduos que disseram ser membros da Diretoria do Brasília V8 Futebol Americano e perguntaram se eu não teria interesse em participar do try-out (seleção de jogadores), que seria realizado dali a duas semanas. Respondi que sim, mas que apenas tinha uma ressalva: minha surdez profunda bilateral congênita.
Os referidos indivíduos – que mais tarde descobri serem Laerte Nicolini, o famoso Papai Smurf, center, e Igor Monteiro, o Fofolete, running back – responderam tão somente que não viam nenhum problema nisso. Vejam bem, a despeito da enorme vontade, sempre pensei que nunca poderia jogar futebol americano ou qualquer outro esporte com características de comunicações sonoras, por razões óbvias.
Ledo engano. Fui extremamente bem-recebido no try-out e o Brasília V8, desde o começo, sempre se mostrou uma grande família aberta aos novos membros. Foi uma experiência inesquecível. As primeiras corridas, os primeiros drills e as primeiras recepções. Lembro-me de assistir os times principais (ataque e defesa) realizarem um coletivo alucinante no campo ao lado. Foi aí que minha paixão pelo esporte começou a aumentar.
Foi aí que a vontade de descobrir mais sobre o futebol americano no Brasil nasceu. Foi aí que o orgulho de praticar o mesmo esporte que Dan Marino, Deion “Prime Time” Sanders e Michael Strahan floresceu.
O capitão sinaliza a jogada. Já sei o que fazer. Foco, então, minha atenção no meu alvo principal, o wide receiver. Aproveito os momentos de tensão latente na linha de scrimmage para olhar rapidamente os movimentos do quarterback, que é o principal jogador do ataque – pois é ele que define a jogada e lança a bola. Percebo, ali, o center gesticulando e distribuindo ordens à offensive line (linha ofensiva).
De repente, a defensive line (linha defensiva) muda de posição, aguardando ansiosamente o snap – o ato de o center jogar a bola para trás e lançá-la ao quarterback. Volto a focar a minha atenção nos movimentos do wide receiver. Procuro antecipar o que ele pretende fazer, embora seja difícil.
Na verdade, o mais difícil para um surdo oralizado e não-sinalizado (não usuário de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais) é fazer a leitura labial em jogadores com capacetes, tendo em vista que a facemask (a grade que fica acoplada no capacete, para proteger o rosto) e o protetor bucal simplesmente anulam a única via de comunicação. Qual é a opção que resta?
No meu caso, houve uma adaptação, tanto minha quanto do time, às necessidades de um e de outro. Foi implementada, pelos defensive backs (defensores da linha secundária), uma série de codificações que permitem transmitir a jogada sem qualquer necessidade de gritar audibles, o que facilita – e muito. É nesse ponto que a sensação de fazer parte de uma família como o Brasília V8 se torna cada vez mais latente.
No mesmo instante em que percebo a movimentação do ataque, já me preparo para o backpedal, ou seja, o ato de correr para trás de costas. Após uma análise rápida da constituição física do wide receiver – se ele é alto, baixo, veloz ou forte – decido que farei o bump and run coverage (empurrão e cobertura de corrida) para tentar, pelo menos, atrasar a rota do recebedor e assim, obrigar o quarterback a procurar novas alternativas, o que dá mais tempo para a linha defensiva pressionar fortemente e tentar conseguir um sack. O silêncio resultante da surdez me permite focar visualmente na linguagem corporal do jogador adversário a ser marcado.
O futebol americano é um dos esportes mais democráticos que existem. Isso é um fato. Gordos, magros, altos, baixos e, de certo modo, surdos, estão mais do que aptos a serem jogadores desse esporte. O papel desempenhado por cada um deles pode ser determinante para o resultado de um jogo, seja um bloqueio simples ou uma marcação individual. O que me fascina, inexoravelmente, é a capacidade que um time tem de se tornar uma grande família e de superar obstáculos. Superação, determinação e força de vontade são constantes na vida de quem respira futebol americano e de quem possui qualquer tipo de deficiência.
Volto a olhar, rapidamente, para a sideline, onde se encontram o Head Coach, Bruno Santos, os coordenadores ofensivo, Iure Marques, e defensivo, Arthur Mendes Antunes, além dos meus companheiros de guerra. Dou uma última olhada para a formação do ataque, para então, finalmente, focar minha total atenção visual no wide receiver, que já se encontra em ponto de bala para a arrancada. Sem aparelhos auditivos, não ouço absolutamente nada e em razão disso, não consigo ouvir o famoso “down… set… hut!” vociferado pelo quarteback. Logo, é primordial que eu me concentre no jogador que se encontra à minha frente, com o meu campo de visão sendo limitado pela grade acoplada ao capacete. A tensão é simplesmente alucinante.
Em razão de a surdez ser congênita e ter sido originada pela rubéola, não tive a oportunidade de aprender a falar corretamente como as pessoas ouvintes o fazem – pois as crianças aprendem ouvindo os pais falarem. Porém, isso não me impediu de ter uma convivência normal com ouvintes, apesar de ter passado por momentos difíceis, como bullyings e brincadeiras de mau gosto.
Estudei em colégios para ouvintes, estudo Direito, aprendi a falar e fazer leitura labial em inglês, e recentemente, consegui o diploma da Universidade de Cambridge para iniciantes. Minha próxima meta é aprofundar meus conhecimentos atualmente precários na Língua Brasileira de Sinais, além de melhorar como jogador. Cada dia é uma vitória. E aproveito a oportunidade para parafrasear o grande Vince Lombardi: “se você acredita em si mesmo e tem coragem, determinação, dedicação, iniciativa competitiva e se você está disposto a sacrificar as pequenas coisas da vida e pagar o preço pelas coisas que valem a pena, isso pode ser feito”.
De repente, o wide receiver dá o primeiro passo à frente. Automaticamente, processo a informação de que a jogada já começou e que tenho de fazer a minha parte! Pelo canto dos olhos, posso perceber a grande e eufórica movimentação na linha de scrimmage, quando os defensive tackles e defensive ends se chocam contra a offensive line, buscando o alvo precioso que é o quarteback.
Em questão de segundos, o recebedor vem na minha direção, tenta ir para o lado, mas consigo dar um bump (empurrão) – fazendo com que ele perca um pouco a rota para o lado – e começo a run coverage (cobertura de corrida). Não sei o que os meus companheiros de guerra estão fazendo, se o safety está prestando atenção, se o outro cornerback está marcando, se os linebackers estão cobrindo a zona. Só sei que tenho de impedir o meu wide receiver de cumprir o seu objetivo, que é receber a bola e fazer um touchdown.
Tudo no maior silêncio. Só posso imaginar a barulheira que deve ser o contato físico, o choque entre pads e helmets, os gritos, o público berrando e os treinadores distribuindo ordens. Do nada, o recebedor muda a rota, correndo para a direita e entrando no meio do campo mas, felizmente, consigo antever a mudança pela movimentação dos quadris dele e o acompanho por trás. Ao mesmo tempo, cometo um erro que pode ser fatal: não observei, ainda que rapidamente, o quarterback. Isso é essencial, para saber se ele vai lançar a bola para o recebedor que você está marcando ou se vai tomar outro tipo de jogada. Segundos depois, a jogada termina, com o árbitro indicando o 2nd & 6.
E depois de um huddle (reunião) rápido convocado pelo capitão da defesa, volto à minha posição inicial. A batalha continua!”
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