Eu sou Juliana Tavares. Meu marido, Guto Leirião, tem perda auditiva neurossensorial profunda no ouvido direito e, desde que começamos a namorar, o cenário era sempre o mesmo. Para assistir a um filme, a televisão estava sempre ligada no volume mais alto. Ao telefone, o tom de voz dele também costumava subir. No carro, era uma dificuldade conversar e ouvir música caso a janela estivesse aberta e o ar condicionado, desligado.
No restaurante, ele sentava primeiro porque eu sempre me esquecia em qual lado eu tinha de ficar para podermos conversar. Dependendo do lado em que ele ficava no cinema ou no teatro, eu saberia se conseguiria aproveitar o passeio ou passaria o tempo explicando algumas falas durante a apresentação. E, eventualmente, precisava traduzir o que os garçons ofereciam porque, quase sempre, lhe falavam do lado errado.
Poderia enumerar diversas outras circunstâncias que só aconteceram por causa da perda auditiva dele. Mas ficarei com um que nos preocupava muito. O Guto não conseguia perceber que nossos filhos, então com 4 e 2 anos, trocavam algumas letrinhas ao falar. Combinamos que, se um deles perguntasse se tinha falado de maneira correta, não diríamos nem que sim, nem que não. Apenas repetiríamos a palavrinha do jeito certo e continuaríamos a brincadeira. Mas isso não amenizava a frustração dele por não ouvi-los bem em 100% do tempo.
Estávamos acostumados com tudo aquilo. O Guto passou a infância ouvindo de médicos que não havia solução para a perda auditiva unilateral, afinal as próteses não possuíam recursos eficazes e, se insistisse, ele acabaria ouvindo com atraso ou de forma robotizada. Ademais, a perda auditiva unilateral sequer é tipificada pela legislação, não sendo considerada deficiência. Isso só reforçava o que o próprio Guto sentia: “não sou deficiente”, repetia. “Tenho um só ouvido, mas ele é ótimo. É isso o que importa.”
Tudo mudou a partir do momento em que ele foi apresentado pela Signia à tecnologia Cros. O que ninguém imaginava é que a família inteira seria beneficiada com a novidade.
Já nem me lembrava como era estar numa casa cujo som da TV está no volume baixo. Não conseguia imaginar que parte do meu estresse era causado pelo fato de ter de repetir várias vezes a mesma coisa para ser compreendida. Viajar de carro passou a ser uma experiência prazerosa, com direito a conversa e muita música. Já não importava o lado em que eu ficava na mesa, e sair com os amigos para barzinhos passou a ser divertido também para ele, que costumava ficar isolado, sem entender direito o que estava acontecendo porque precisava se esforçar muito para ouvir. Hoje ele consegue localizar rapidamente os nossos filhos pela casa sem precisar percorrê-la inteira. 🙂
Estas ‘pequenas’ mudanças fazem toda a diferença na nossa qualidade de vida e nos fizeram refletir sobre compreender, realmente, as limitações de quem tem perda auditiva, ainda que parcial. Principalmente porque um meio surdo, frequentemente, é chamado de preguiçoso e oportunista porque, afinal, “ele só ouve o que quer e quando quer” – o que, obviamente, não é verdade.
Passamos a nos questionar sobre quantas vezes figuras de autoridade, como o gerente, por exemplo, se apresentaram gratuitamente contrariadas e concluímos que isso poderia, sim, ser relacionado ao fato do Guto ouvir perfeitamente qualquer pessoa que estivesse ‘do lado certo’, enquanto simplesmente ignorava todas as outras que estavam ‘do lado errado’.
Nunca teremos certeza, mas aconteceu muitas vezes. Imaginamos quantos desentendimentos teriam sido evitados se ele tivesse ouvido o pedido de ajuda na hora em que foi solicitado. A lista é infinita e, certamente, trouxe respostas a situações que nem mesmo o Guto imaginava que teriam sido causadas pela perda auditiva. A questão é tão profunda que até mesmo expressões que ouvia muito dele, como ‘a vida é difícil’, ‘sou azarado’, ‘essa pessoa não vai com a minha cara’… deixaram de fazer parte do dia a dia dele, de um dia para o outro!
Nossa vida se dividiu em AC e DC (antes do Cros e depois do Cros). Ouvir sem esforço ganhou uma nova definição, inclusive para outros familiares. Hoje, meu estresse só acontece quando o Guto deixa de usar o aparelho auditivo por algum motivo – geralmente quando sai do banho e uma das crianças o chama para brincar. E com muito orgulho posso admitir: aqui somos todos Cros dependentes.
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