Ativação do Implante Coclear: Paula Pfeifer, 11/11/2013
Vou começar esse post pedindo para todo mundo dar um like na FanPage do Blog no Facebook – lá consigo atualizar mais em tempo real do que aqui. Isso foi o que escrevi no Facebook na noite do dia 11.11.2013:
‘Pra quem duvidava de amor à primeira vista, tomei um belo tapa de luva: e já suspeito que vai ser amor verdadeiro, amor eterno. Fui pra ativação achando que não iria gostar, afinal, todo mundo me dizia que eu não conseguiria diferenciar voz de homem e voz de mulher e que todas as vozes seriam iguais à do Pato Donald por vários meses. Para minha total e absoluta surpresa, diferenciei numa boa as seis vozes que ouvi, e quando o Dr.Lavinsky entrou na sala e falou, na hora meu cérebro: ‘voz de homem, oi!’.
Ta tudo muito baixinho ainda, e a mistura do som do IC de um lado e do AASI do outro é meio bizarra. Mas imaginem a minha cara de pastel quando, ao voltar pro hotel, minha amiga/fono/irmã Mi ligou para a mãe dela e eu, que estava de costas, comecei a entender quase tudo o que ela dizia. Entender voz SEM leitura labial nas primeiras horas. Quase enfartei! Fiquei tão faceira com o quanto tudo foi diferente do que eu imaginava que até ‘perdi o medo’ da longa reabilitação. Só peço aos amigos que me encontrarem daqui para a frente: não tenham expectativas exageradas comigo, please. Agora a vida vai ser, mais do que nunca, um dia de cada vez! PS: e a emoção indescritível de ouvir a minha voz como eu não ouvia há no mínimo uns 22 anos? Haja coração!’
No dia 12, fiquei em Porto Alegre e fui encontrar meu primo, que é médico. Conversamos, reconheci a voz dele, algumas vezes ele falou de lado para ver se eu entendia e algumas coisas entendi. Encontrei na rua dois amigos (Bruno e Sandro) que vieram falar comigo e também reconheci as vozes deles. Inclusive com o Bruno comentei que me senti de volta à oitava série, quando nossa amizade começou, pois pude ouvir a voz dele bem como ouvia naquela época.
No dia 13, peguei a estrada para voltar para Santa Maria. Fui dirigindo. Quando minha mãe me cutucou pela primeira vez na viagem para conversar comigo eu disse ‘mãe, não me cutuca, vai falando que vou continuar olhando pra frente e vamos ver se entendo alguma coisa’. Fomos conversando (de leve, mas fomos!!!) de Porto Alegre até Santa Cruz do Sul sem que eu olhasse os lábios da minha mãe nem uma única vez. E posso dizer que entendi uns 70% do que ela falou. Chegando em Sta Cruz fui ver minha mãe número 2, a Regina – e finalmente conheci a voz dela tal como é, e também a do Adônis, com quem bati um longo papo e, por força do hábito, ficava me cutucando o tempo todo.
Todos comentaram que o meu semblante era muito mais suave e que eu não ficava mais mexendo o rosto exageradamente dando ênfase ao que eu estava falando. No fim, acho que me forcei demais porque cansei, no trajeto de Sta Cruz até Sta Maria já não era mais capaz de entender nada do que a mãe falava sem leitura labial, rsrsrs. Chegando em casa, reconheci a voz do meu irmão, da minha avó e da minha tia, e ainda consegui ouvir os passos do meu cachorrinho pelo piso de tabuão da casa. Achei o máximo!!!
Só que, antes de ir dormir, peguei a mala que vem com o Nucleus 5 para arrumar o desumidificador do IC e vi uma luzinha azul acesa. Era o controle remoto. No dia anterior, eu havia carregado o controle. A indicação da minha fono é de que toda segunda-feira eu troque de programa, até o meu primeiro mapeamento, que será no dia 16/12. Saí do consultório no P1. Para minha surpresa, como não travei o controle, ele deve ter tocado na capinha e foi pro P4. Bem que achei estranho que estava ouvindo a minha voz ainda mais alta e tal.
Passei um dia inteiro no P4 sem saber. Aí a mãe ligou para a Adriana, que me mandou voltar já pro P1. Já li relatos de pessoas que falaram que ao chegar em casa tocaram direto pro P4, mas vou respeitar as ordens médicas. Inclusive elas me deram lá a ‘explicação científica’ de não pular etapas e a própria Michele Garcia (minha fono/irmã/amiga que foi junto no dia da ativação) me disse que fazia muito sentido e eu deveria obedecer. Portanto, de volta ao P1.
Dia 14 eu meio que cheguei no meu limite. Os barulhos normais de uma casa em funcionamento com várias pessoas em casa me deixaram atordoada. Comecei a me irritar, me estressar e surtar. Se alguém me chamasse “Paula” mais uma vez, eu estava a ponto de dar um soco na pessoa. Acho que meu cérebro deu tilt. Para me deixar mais louca, meu IC (a parte que vai atrás da orelha, não o ímã) fica caindo o tempo todo porque minhas orelhas são minúsculas. Aí vi que tinha chegado o momento de tomar um calmante e ir dormir. Entreguei os pontos. Sem vergonha nenhuma.
Hoje, dia 15, tive a belíssima experiência de ouvir ‘sem querer’ o barulho da chuva. Comecei a ouvir um barulho, vi que estava chovendo, fechei a porta do quarto e desliguei a TV. Pronto: fiquei com o coração na boca uns 10 minutos ouvindo a chuva cair lá fora, coisa que já nem lembro quando foi que fui capaz de fazer pela última vez.
Ainda to meio atordoada, tentando pegar intimidade com meu IC. Posso dizer que AMO OUVIR A MINHA VOZ do jeito que estou ouvindo. Ontem fiquei o dia todo só com o IC para ver como era, hoje estou de IC e AASI. Acontece que o som dos dois juntos ainda não ‘fundiu’, ou seja, no final de cada palavra/som vem junto com “RRRR”, como se fosse um curto-circuito. As fonos disseram que geralmente após umas duas semanas isso some. Ah, também tinham me dito que ouvir música com o IC era horrível. Colocamos um CD a tocar no carro, de house music, e eu não só ouvi tudo como adorei a experiência.
Enfim, fui preparada para o pior, esperando o melhor, e aceitei o que recebi. Me sinto tão, mas tão grata e abençoada. Sinto que tudo a meu respeito está mudando por dentro, não sei explicar isso. Me sinto feliz, assustada, atordoada, surpresa, cansada, eufórica, tudo ao mesmo tempo.
Por último, uma baita notícia: meu Crônicas da Surdez foi habilitado a concorrer ao Prêmio Sérgio Buarque de Holanda de Ensaio Social, da Fundação Biblioteca Nacional 2013! Mas que orgulho, tchê! 😀
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