“Paula, gostei muito do seu blog e existem algumas histórias com as quais me identifico e adoro suas sugestões de como seguir uma vida normal com a surdez. Tenho 23 anos e sou portadora de deficiência auditiva do lado direito profunda e do lado esquerdo uso o aparelho auditivo. Descobri meu problema auditivo aos 16 anos quando percebi que tinha muita inflamação em ambos os ouvidos. Passei com o otorrinolaringologista e o mesmo me disse que tinha os dois tímpanos perfurados e precisaria de uma cirurgia de reconstrução…. a timpanoplastia.
Na mesma idade fiz a minha primeira cirurgia (ouvido direito no qual eu escutava um pouco), sabia das consequências…..mas quando achamos que as consequências iriam se concretizar? Pois é, aconteceu. Perdi a audição que eu tinha no ouvido direito. Não sofri muito porque ainda escutava bem do ouvido esquerdo. Aos 18 anos fiz outra reconstrução mal sucedida. Enfrentei novamente a sala do centro cirúrgico com esperanças de que poderia voltar a ouvir com outra timpanoplastia…. Mas não deu! Não me incomodei, fiquei triste mas passou. Entrei para a faculdade de Enfermagem em uma das melhores faculdades particulares. Olha que orgulho do papai ! Sim, sou órfã de mãe e com certeza meu pai é pãe como eu chamo ele! Guerreiro, me ajudou sempre e sofreu junto comigo….até mais que eu mesma.
Quando estava com 20 anos comecei a realizar acompanhamento com uma fonoaudióloga maravilhosa. Percebi que estava precisando quando não conseguia mais auscultar batimentos cardíacos dos pacientes. Meu mundo acabou aí! Como assim eu seria uma profissional da saúde sem conseguir auscultar coração? Pulmão ? Sibilos ? Era impossível. Comecei a usar o Aparelho Auditivo, não gostei, era vergonhoso. Nunca mais iria conseguir entrar em uma piscina, prender o cabelo, ouvir música sem dificuldade, televisão e filmes jamais. Com a ajuda da minha fonoaudióloga consegui me adaptar mas, não nego que foi muito difícil. Imagine para a minha família ? As coisas mudaram muito, as pessoas começaram a falar comigo mais alto…..mas ninguém se incomodou. Todo mundo ficou chateado. Por que isso foi acontecer comigo? Me abateu de uma forma que pensei sobre todos os sons que não poderia mais ouvir.
Pessoas maravilhosas estiveram do meu lado sem nenhum preconceito. Na verdade a maior pessoa preconceituosa era eu mesma. Ninguém estava ligando se eu usava ou não, meu aparelho quase nem aparecia, as pessoas que mais ficavam comigo mal sabia da minha deficiência. Essa fase de adaptação me trouxe muitos pensamentos e um dos maiores foi: as pessoas em sua volta não te vêem como deficiente e sim como uma pessoa que apenas escuta baixo.
Tive dificuldades como no dentista: que é uma pessoa na sua cara falando e você não conseguindo escutar? A pior coisa. Como dormir ao lado de uma pessoa e não poder escutar a sua respiração enquanto dorme? Interferências em lugares altos ? Baladas são um pesadelo para quem usa aparelho (quando vou para uma tiro o meu AASI).
Na faculdade meus professores começaram a falar um pouco mais alto nas aulas com sigilo para que isso não me prejudicasse. Me ajudaram a me adaptar por enquanto sem estetoscópio, por isso nunca me deixei de ter um emprego. Trabalhei na área como estagiaria! Nossa que medo quando comecei. Contei para minha ex chefe (mudei de emprego) ela fez questão de comprar um esfagno automático para me ajudar. Meus pacientes? Não tenho o que reclamar daqueles que sabiam e dos que não sabiam…sou eternamente grata pela compreensão.
Sempre consegui socializar com as pessoas em minha volta. Infelizmente ainda tenho um pouco de vergonha. Vergonha de dizer que uso para aquelas novas pessoas do cotidiano e medo de como vão lidar com isso. Esse ano de 2014 fiz outra cirurgia mas a audição não voltou. Parei com elas por enquanto… Quem sabe um novo método em 2015 pode aparecer. Minhas amigas foram me visitar no hospital e ali percebi o quanto isso não interfere na nossa amizade. Quando digo para elas que isso me incomoda elas fazem questão de me xingar e dizer que não tenho porque me preocupar pois sou uma pessoa meiga e carismática sempre rodeada de amigos.
Não tenho nem palavras para dizer o quanto meu pai é essencial nesse processo, dói ver ele sofrer por mim e às vezes me deparo com o quanto isso afeta ele. Aí chego e falo: não se preocupe com isso, estou bem assim. Tenho que agradecer também ao meu namorado que mesmo sabendo disso tudo está ao meu lado me apoiando sem preconceito nenhum. Me aceita do jeito que sou. Te amo. Agradcer à minha fono que sempre esteve disponível para me ajudar e procurando sempre soluções para meus problemas. Me mostrando novas tecnologias acessíveis para minha profissão como o estetoscópio incrível que liga ao aparelho. Problema solucionado para a minha profissão! E claro para as minhas amigas que sempre estão do meu lado com ou sem aparelho. Falando alto sempre que necessário e me ajudando em qualquer situação e sempre repetindo que isso não é um bicho de 7 cabeças.
Agora novos desafios chegaram. Trabalhava em atendimento ambulatorial e agora em janeiro estou indo para área hospitalar. Conto mais sobre isso depois… Obrigada Paula pela ajuda e por esse blog maravilhoso. Tenho certeza que ajuda muitas pessoas seguirem suas vidas normalmente. Muito sucesso para você!”
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