Desde que voltei a ouvir já estive em algumas palestras como aluna, mas ainda não havia estado dentro de uma sala de aula. Me inscrevi num curso de Branding na Escola Superior de Propaganda e Marketing e fui para o primeiro dia bem faceira. Chegando lá, não consegui parar de pensar nos meus anos de Colégio Marista e de Universidade Federal de Santa Maria.
É engraçado como a cabeça da gente funciona, a minha memória mais antiga dos tempos de escola é justamente a de ficar desesperada nos dias de prova pois a professora começava a fazer a chamada e todos estavam concentrados na prova recém recebida enquanto eu precisava esperar até que os lábios dela fizessem o desenho da palavra ‘P-A-U-L-A’. Não havia a menor possibilidade de baixar a cabeça e esperar que meus ouvidos captassem sem esforço meu nome, e essa lembrança, se não me falha a memória, é da segunda ou terceira série do primeiro grau. Era um pinguinho de gente e já convivia com a deficiência auditiva sem saber.
Hoje consigo olhar para trás e ver como foi difícil e cansativo ser surda durante toda a vida escolar sem ajuda. Só no segundo ano do segundo grau é que fui saber que já estava na surdez severa e precisava de aparelhos auditivos, os quais me neguei a usar porque sentia vergonha de ser diferente.
Hoje percebo que as matérias nas quais nunca fui boa – química, física, matemática – eram aquelas que eu não entendia o que os professores diziam, pois falavam virados para o quadro-negro enquanto resolviam problemas e equações, e eu não queria demonstrar minha falta de audição pedindo que repetissem e deixava pra lá. Só que, ao chegar em casa, nem minha vó nem minha mãe eram boas em exatas, então não tinha quem pudesse de fato me ensinar. Já as outras matérias eram mais fáceis, os professores falavam de frente para os alunos e eu tinha mais facilidade para entender e acompanhar sem sofrimento.
Lembro que no Colégio Marista éramos obrigados a ir na igreja uma vez por semana, e lá a turma ficava cantando canções de Champagnat – eu só ‘pegava’ partes das canções, e o que não entendia cantarolava fingindo que estava cantando certo. Quando ia à missa na Igreja do Bom Fim com minha avó era o mesmo drama: ou encarava o padre a missa inteira ou então inventava um sermão na minha cabeça.
Lembro de viver em pânico pensando “alguém vai me chamar e eu não vou ouvir“. Escolhia sempre um lugar na fileira da parede, assim tinha visão panorâmica da sala se sentasse de lado. Por um tempo tentei ficar lá no fundão – se alguém me chamasse teria que se virar e assim eu ‘ouviria’ – mas desisti porque leitura labial do professor à distância me deixava vesga.
Lembro de uma vez levar um livro para ler durante o recreio, me entreter com ele e não perceber a sirene do final do recreio e ficar lá no bar da escola sentada lendo. Quando percebi o que tinha feito e voltei para a sala, fui parar na direção e tive que me explicar. Já não recordo qual desculpa inventei, mas a verdade era uma só: não ouvi a sirene.
Lembro de abandonar o time de vôlei que eu tanto adorava (era da equipe que viajava pra competir) porque não entendia as mudanças de posição (rotações) e aquilo me deixava atordoada – tentava perguntar rápido para as colegas para onde eu devia ir mas elas falavam sem me olhar e eu não entendia o que diziam. Aí, já viu.
Lembro de inventar dores de barriga e afins sempre que a professora de inglês tinha a infeliz idéia de levar um aparelho de CD para a sala e transformar a aula em ouvir e transcrever músicas. Nossa senhora, que desespero aquilo me dava. Literalmente fugia…
Lembro que quando os professores faziam alguma oração antes da aula começar todos os colegas fechavam os olhos e rezavam enquanto eu fechava um e mantia o outro bem aberto.
Lembro de uma excursão da escola a Florianópolis e da ‘melhor amiga’ fdp que me deixou dormindo no quarto já que não acordei pela manhã como todo mundo quando os professores passaram para nos acordar porque…não ouvi!
Lembro de sentir a espinha gelar inteira quando algum colega pedia o número do telefone da minha casa porque queria me ligar após a aula.
Lembro de chorar sozinha pensando que não seria capaz de fazer um intercâmbio porque seria dureza demais ir sozinha para outro país e ter que me virar daquele jeito em outra língua. Não encontrei força nem ânimo para tentar.
Só lembranças desagradáveis. Talvez por isso eu não sinta saudade nenhuma daqueles tempos, já que nunca estava relaxada e aproveitando as aulas e as interações como as outras crianças. Vivia tensa e preocupada, em pânico com o próximo ‘HÃN?‘ que precisaria falar. Me acho forte, mas não sei como aguentei. Achei que na faculdade as coisas melhorariam, mas só pioraram! Uma vez participei de um trabalho de campo de pesquisa eleitoral em Porto Alegre, e precisava entrevistar eleitores na rua. Que sufoco!!! Não entendia as respostas que eles me davam e comecei a me desesperar.
A reflexão é: como minha vida teria sido incrivelmente mais fácil e mais divertida na infância e adolescência se a tecnologia disponível hoje existisse naquela época. Não existia conectividade bluetooth para aparelhos auditivos, sistema FM, Mini Mic, nada! Se algum pai ou mãe estiver lendo esse post, fica o apelo: dêem todo o apoio da tecnologia que for possível para o seu filho que usa AASI ou IC e está em idade escolar. Isso pode definir todo o futuro dele! Eu, por exemplo, passei noites chorando pensando qual faculdade iria fazer já que não ouvia nada. Acabei escolhendo uma que não tinha nada a ver comigo por puro pavor de estar em situações e lugares nos quais eu não entenderia uma palavra.
Aí, minha gente, imaginem o turbilhão de emoções que me invadiu quando entrei naquela sala da ESPM ouvindo. Quando a fala do professor entrou pelo meu implante coclear e fez sentido sem leitura labial. Quando captei o que o colega lá de trás disse sem olhar para ele. Quando ouvi e entendi os vídeos em inglês sem legendas que foram mostrados nas aulas. Tive a sensação de que uma capa de vidro grosso que cobria minha alma finalmente foi quebrada. Agora o som entra. Agora eu entendo as pessoas.
Agora estar numa sala de aula não é mais uma sessão de tortura. Agora não me sinto deslocada. Agora não sinto pânico ao pensar que alguém pode e vai falar comigo. Agora não quero fugir e nem conto os segundos para a aula acabar. Agora finalmente entendi como é gostoso ser aluno, como é gostoso estudar, como é gostoso esse exercício de se expressar na frente dos outros, falar, ouvir, comunicar… Borboletas no estômago!! Passei o curso inteiro ávida por ouvir tudo o que os professores e os colegas diziam. Foi maravilhoso não precisar ficar presa dentro da minha própria cabeça, tendo que inventar pensamentos e diálogos para que o tempo passasse mais rápido. Se existisse um botão ‘Rewind‘ da vida, eu apertaria e voltaria para a primeira série – mas apenas se pudesse voltar já implantada e ouvindo.
Não sei se já comentei, mas decidi fazer o IC no lado esquerdo. Já entrei com o pedido no plano de saúde e agora só resta aguardar a liberação. Há algumas semanas estou usando um aparelho auditivo no OE chamado Boost (Audibel), pois ele se comunica com o implante coclear que eu uso, o Nucleus 6. Até me operar vou usá-lo para voltar a estimular meu ouvido esquerdo. E estar nas aulas com IC de um lado e AASI do outro foi muito bom, pois não fiquei com aquela sensação incômoda de “só ouço de um lado“. Meu resíduo auditivo no OE é em graves, e o aparelho me dá um ganho legal – posso ouvir música em modo stereo com os dois juntos, por exemplo. Um complementa o outro.
Agora fico aqui sonhando com um intercâmbio, nem que seja de um mês, para praticar meu inglês ao vivo e a cores, ouvindo e entendendo tudo. Não morro sem antes fazer isso!!! Ah…semana que vem começo a ter aulas com um professor particular britânico para praticar minha pronúncia. Tadinho, vai sofrer comigo! Se tudo der certo depois eu compartilho o contato dele com vocês.
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