Aparelhos Auditivos Deficiência Auditiva

Qual a sua desculpa para não usar aparelho auditivo?

Qual é a sua desculpa para não usar aparelho auditivo? Várias pessoas sucumbem à adaptação aos aparelhos auditivos pois esta é uma experiência muito cansativa no início. O esforço necessário para se concentrar, entender a fala em ambiente ruidoso e os componentes físicos e emocionais envolvidos levam a grande maioria dos usuários a um estado de stress bem complicado. Só que nem tudo está perdido. A fada dos aparelhos auditivos não vai surgir do além para resolver o problema, hein! É você que precisa se propor a enfrentar o dragão de cabeça erguida! Selecionei as desculpas mais usadas – muitas delas eu mesma já usei – e argumentei cada uma delas…

Não consigo me adaptar!

Você já tentou o suficiente? Aliás, o que chama de ter tentado o suficiente? Quantas regulagens diferentes fez? Quando faz uma regulagem nova, usa seus AASI direto por dez dias ou mais e vai testando variações de volume? Há quanto tempo você tem usado aparelho firme e forte todos os dias? Se você tem usado seus aparelhos por duas horas por dia, só em casa e desiste ao menor sinal de algum som que incomoda, você precisa de uma desculpa melhor, porque essa não cola. A adaptação aos AASI leva tempo e requer de nós paciência. Os aparelhos levam o som que conseguem levar até o cérebro, mas é o cérebro que precisa fazer o serviço de decodificar esse som, ou seja, quanto mais você usar, melhor.

Meus aparelhos apitam!

Isso se chama microfonia, e é facilmente resolvido com uma consulta de regulagem com a fonoaudióloga. Você emagreceu? Porque os moldes podem ficar pequenos para o conduto auditivo quando emagrecemos. Quando passaram a apitar, você foi à fono para regular novamente? Ah, não? Então marque sua consulta hoje mesmo.

Meus aparelhos machucam!

Nisso, sou expert. Quando um molde está mal feito dói mesmo, e dói muito. Brinco dizendo que um AASI é como um absorvente interno, que incomoda, machuca, irrita mas, de repente, você nem lembra mais que está lá. Não dá para desistir de chegar ao molde perfeito. Uma vez precisei refazer seis vezes os meus moldes, quando um ficava ótimo, o outro me machucava tanto que nem conseguia nem usar meu aparelho. Uma vez um molde me machucou a ponto da minha orelha ficar paralisada de dor após duas horas de uso e o conduto auditivo ficar doendo por mais de semana. Converse com sua fono e refaça o molde até que você não sinta dor alguma.

O som não é igual à minha audição de antes!

É claro que não é, isso é fato, e ficar lamentando é perda de tempo. A audição natural perfeita é um tremendo presente e a tecnologia ainda não alcança a sua perfeição, mas está quase lá. Muita gente reclama que o som é robótico ou metálico. Colocar um aparelho auditivo não é voltar a ouvir como antes, é ter a chance de ouvir de outro modo. Um recomeço. Você precisa se propor a gostar desse novo som em vez de apenas cruzar os braços e reclamar dele feito criança birrenta. Surdez e perfeição não combinam, e nem os ouvintes ouvem e entendem tudo. Se cobre menos e entenda que aparelhos são uma ajuda, não um milagre.

Piora o meu zumbido!

Cada caso é um caso. Meu zumbido piorava bastante no final do dia quando finalmente tirava meus AASI para dormir. No início isso me irritava muito e usei essa desculpa a torto e a direito, até que a ficha caiu: é mais importante ter um zumbido baixo no fim do dia ou ouvir o dia inteiro? Fico com a segunda opção.

As pessoas ficam olhando para eles!

Ah, os curiosos. Costumo dizer que as pessoas não estão interessadas na nossa surdez como supomos, é apenas a nossa mania de perseguição falando mais alto. Pode ser que a pessoa que está olhando seu AASI nunca tenha visto um na vida, pode ser que ela também use e esteja curiosa a respeito do modelo que você usa, enfim, nunca se sabe. Eu mesma tenho mania de ficar procurando AASI e IC nos ouvidos alheios e morro de vontade de cutucar a pessoa cada vez que vejo um e começar a bater papo. Como todos os que frequentam este blog, já perdi neurônio e me incomodei bastante com os olhares alheios, mas acabei descobrindo que isso é uma bobagem descabida. Você não olha de um jeito curioso quando vê alguém usando algo que você desconhece?

Pois então! Quando os olhares alheios não nos incomodam mais é porque chegamos naquele patamar maravilhoso de aceitação incondicional, que deveria ser a meta da vida de todo deficiente auditivo. E quando alguém me fala em preconceito sempre digo que o maior preconceito está dentro de nós mesmos – afinal, se alguém é desinformado e ignorante o suficiente para ter ‘preconceito’ com um aparelho auditivo a única coisa que podemos fazer é sentir pena dessa pessoa. Ou lhe dar uma aula sobre surdez e tecnologia, lembrando sempre que ninguém está livre de um dia perder audição…

Minha cabeça dói!

A minha também doeu, tanto na adaptação aos AASI quanto na adaptação ao IC. Faz parte. Seu cérebro desacostuma a ouvir e precisa se reacostumar com os sons. Aparelhos auditivos amplificam tudo (especialmente em ambientes barulhentos) e acho que o sonho de qualquer deficiente auditivo é ouvir de um jeito ‘selecionado’: só fala, só sons suaves, só maravilhas. Só que nem mesmo os ouvintes têm esse privilégio. Cabeça doendo ou cansada é cabeça trabalhando para se readaptar a uma condição nova. Insista, persista e não desista.

Conselhos da Tia Paula

Quanto mais esforço você fizer, mais rápido chegará a um nível de conforto e de amor incondicional à tecnologia que lhe permite escutar. O foco deveria ser esse, e não apenas reclamar e arranjar desculpas. – aliás, reclamar e colecionar desculpas não resolvem nenhum problema… Adaptação a AASI e IC é como uma dieta restritiva: um saco, dá vontade de socar a parede e meter o pé na jaca mas, após um tempo de dedicação e perseverança, você colhe os resultados e isso faz todo e qualquer perrengue valer a pena.

Faça um favor a si mesmo e não prejudique o seu processamento auditivo – se o seu médico lhe indicou aparelhos auditivos, é porque você PRECISA usá-los. Às vezes as pessoas acham que a surdez é o seu grande problema, mas não percebem que na verdade é a sua atitude perante a surdez a verdadeira vilã da história. Se sua decisão final é a de não usar AASI tendo indicação, você precisa estar ciente do quanto isso irá lhe prejudicar: no trabalho, com a família, com os amigos e nos seus relacionamentos amorosos. A escolha é sua e é você que terá que lidar com as consequências da sua escolha! 😉

30 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

7 Comentários

  • Bom,recebi a noticia a pouco tempo que precisaria de aparelho,não consigo me adaptar agora refiz meus moldes ja que o outro me machucava,mais ainda nao consigo me adaptar,me acostumei a não ouvir…..
    Peço muito a Deus que me de forças pra enfrentar esse grande problema,porque e chato demais não ouvi,mais chato ainda e não conseguir se adaptar……

    • Seja persistente, converse com o profissional que lhe acompanha. Fale de suas queixas, dúvidas e receios. Ele vai te ajudar a enfrentar esse momento.
      Um abraço

  • Acho q cada caso é um caso. Eu me adaptei bem, e achei mesmo um som robótico, metálico, mas qdo voltei pra segunda consulta minha fono conseguiu regular para um som muito bom. Quase dois meses e estou bem. Os meus não são moldados são com oliva. O da direita ainda está incomodando um pouco mas eu chego lá. Abraços

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