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O dia em que descobri que a neve faz barulho

Acho que de uma lista de 10 coisas que mais amo fazer nessa vida, sem sombra de dúvida a primeira de todas é viajar. E agora que posso viajar ouvindo as experiências são muito diferentes de quando as viagens eram silenciosas ou do tipo ‘escuto, mas não entendo‘.

Primeiro porque o sentimento de ‘eu consigo‘ me dá uma segurança que antes não existia – quem viaja bastante sabe do festival de perrengues que podem acontecer, de todos os tipos e a qualquer momento, e todos acabam envolvendo, de alguma forma, comunicação com outras pessoas. Segundo porque agora cada viagem envolve descobertas e redescobertas sonoras que me emocionam e me dão um senso de presença no momento presente que nunca tive antes.

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Há algumas semanas atrás fomos para a Europa esquiar, com direito a uma parada de alguns dias em Paris. Ah, Paris. Já passei uma semana com a roupa do corpo lá por conta de uma mala extraviada – e o look único nem foi nada se comparado ao parto de assistir minha melhor amiga pendurada no telefone tentando convencer as atendentes do cartão de crédito que eu tinha deficiência auditiva e não falava ao telefone.

Paris

Dessa vez eu ouvi Paris. O barulho do trânsito, a madeira rangendo na Pont des Arts, muitas palavras em francês, os passarinhos parisienses, a musiquinha do carrossel da Tour Eiffel, o burburinho das pessoas na rua, o som do vento gelado batendo nos meus cabelos.

 

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De lá rumamos para Valmorel. A última vez em que estive na neve foi no meu aniversário de 30 anos, em Valle Nevado no Chile. Usava aparelhos auditivos e minha lembrança auditiva dessa viagem é do desatino que eu sentia porque o taxista que me levou até lá queria ficar conversando comigo, que estava no banco de trás sem enxergar os lábios dele. Só lembro de pensar durante todo o trajeto “por que esse homem não cala a boca, meldels!

No primeiro dia em Valmorel tivemos a sorte de conseguir um dia ensolarado lindíssimo. Minha primeira impressão foi ‘poxa, a neve não faz barulho‘. Não sei que tipo de barulho imaginei, mas neste dia o som da neve foi apenas o das botas tocando e afundando o chão e das pessoas passando em alta velocidade com seus esquis – aliás, esse som é muito bonito. Nada de novo ou de muito emocionante.

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No segundo dia, abri a porta do quarto e me deparei com a paisagem acima. Tempestade power de neve. Céu branco e visibilidade difícil. Quando finalmente fui lá fora, estava com um gorro cuja parte de cima era de material sintético. Barulho de neve nas botas, ok. Barulho de neve dos esquis alheios, ok. Neve caindo nos olhos, ok. Foi então que comecei a escutar um barulho que parecia o de lareira, quando o fogo está consumindo a lenha, sabe? Uns estalinhos diferentes. Parei por uns segundos pensando ‘peraí, vamos raciocinar, que barulho é esse?

Tcharararaaaammmm…eram os flocos de neve caindo no meu gorro. Foi nesse momento que descobri que a neve faz barulho!!! Eu só queria ficar ouvindo aquilo, pois nunca tinha ouvido esse som em 33 anos. Era um som novo, desconhecido, lindo e poético. Isso deve soar tão babaca para os ouvintes que lêem este blog mas, para mim naquele dia, foi como descobrir a América. Já conhecia o som do vento, da chuva, do fogo. E aos 33 anos, pude finalmente conhecer o som da neve. Meu coração saltava pela boca de tanta alegria e contentamento.

 

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Antes de continuar, dois causos. O da foto superior é o cabo de áudio do meu IC, que me permitiu, pela primeira vez na vida, assistir a filmes no avião com áudio em português sem legendas e entender tudo. Cada palavra. Cada mísera palavra!! Justo eu, que sempre viajava louca de raiva nos vôos internacionais pela total falta de acessibilidade para os passageiros que não escutam, pude desfrutar de um vôo com prazer.

Aliás, isso é um grande problema. Ou os filmes não têm legendas, ou têm legendas em italiano/francês/chinês ou o áudio é em português. E quem não ouve, como fica? As companhias aéreas não dão a mínima para essa questão. Dificilmente os anúncios em vídeo são legendados e não existe chance de legendagem dos anúncios da cabine…

A segunda foto tirei na entrada de um teleférico  e ela mostra que a passagem de portadores de marcapasso é proibida. Avisamos a funcionária sobre o IC, que abriu a passagem lateral pra mim numa boa.

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De olho nos ouvidos alheios

Encontrei vários usuários de aparelhos auditivos no hotel em que nos hospedamos. Na hora que o pessoal ia se paramentar para esquiar, eu ficava de olho nas orelhas e vi diversas pessoas encaixando seus capacetes enquanto usavam AASI nos dois ouvidos. Um dia notei uma moça de IC e não conseguia parar de observar. À noite, pedi ao Luciano que cutucasse ela para bater papo (sou envergonhada nessas horas). Acabei descobrindo que ela era de Israel, que usava IC num ouvido e AASI no outro, que esquiava só com o IC porque o AASI machucava, que precisou fazer a cirurgia duas vezes já que a primeira não deu certo e que, em função disso, não pensava ainda em implantar o outro lado.

Em alguns dias percebi distorção do som do meu IC, e acho que devia ter a ver com o frio de 15 graus negativos. Quando começava a distorcer eu já ia logo tirando e colocando no desumidificador. Depois, parou. Um dia testei o volume do telefone do quarto e achei sensacional: alto, claro e limpo como jamais ouvi em telefone de hotel. E seguindo a dica dos leitores lá na FanPage, não levei as baterias recarregáveis, apenas as comuns já que estas não param de funcionar no frio.

Os melhores momentos são quando estamos sozinhos e de repente, numa situação totalmente inesperada, descobrimos um som novo, ouvimos novamente algo que não ouvíamos há anos ou então ouvimos e entendemos algo sem querer. Nessa viagem, a lembrança mais legal foi a de estar sozinha num ônibus e ouvir: “Prochaine arrêt, Piou Piou” – se não pirei de vez e estou com Alzheimer, acho que coloquei no primeiro livro que isso me aconteceu uma vez num trem na França, de AASI, quando ouvi ‘Prochaine arrêt, Villeneuve Loubet‘, entendi e fiquei dando pulinhos internos de felicidade.

A volta pra casa

Na volta para casa, o vôo era Genebra- Paris. Me surpreendi ao notar que o aeroporto de Genebra, tão moderno e sofisticado, não possui nenhum aviso sobre IC e marcapasso no detector de metais. Dentro do avião, haviam dois bebês HIS-TÉ-RI-COS chorando e berrando como se não houvesse amanhã. Olhei para o semblante de todos (um misto de tristeza com desespero pelo barulho), depois olhei para as nuvens da janelinha do avião e pensei: “Mas que sorte a minha! É só desligar meu implante coclear!” Passei o resto do vôo pensando que, quando for mãe, vou ter a opção de selecionar o volume tolerável de choro e, ainda melhor, de não ouvir choro nenhum! 🙂

Fico impressionada com o quanto as crianças acham o IC legal. Quando preciso explicar que não posso fazer tal coisa por causa do IC ou preciso fazer alguma coisa diferente por causa dele, as expressões são sempre de “UAU”, “Que legal” e afins. Ou quando estou com crianças em situações de barulho desagradável só vejo aqueles rostinhos me olhando e dizendo “Ei! Você pode desligar seu IC! Que inveja!

Por último, o veredicto: eu não esquiei! Hahahaha! Aluguei o equipamento, peguei capacete especial mais folgado, fiz tudo direitinho como manda o figurino. Mas quando calcei um esqui na neve e fui tentar pela primeira vez, me deu um treco e travei inteira. Saí correndo e não toquei mais no assunto…

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