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Os sons de um hospital

Esse post foi escrito em 2015 quando minha mãe passou vários meses internada na UTI de um hospital. Foi lá que tive a experiência de prestar atenção aos sons de um hospital. É impressionante como nossa perspectiva muda quando enfrentamos situações intensas e marcantes como essa.

Os sons de um hospital

O contraste entre a última experiência que tive num hospital e a que estou tendo agora é gritante. A última vez foi quando me operei, e a lembrança que tenho é apenas dos objetos e das sensações que vivi, pois não ouvia absolutamente nada. A sensação que mais me recordo é a de medo, já que não fazia ideia do que acontecia e do que as pessoas estavam falando ao meu redor.

Odiava com todas as forças ser sempre a última a saber do que quer que fosse.

Nenhuma informação chegava até mim de modo espontâneo, alguém precisava trazê-la senão eu nem ficaria sabendo. Lembro de passar uma tarde inteira pensando que eu mais parecia uma planta. Estava ali só de corpo presente, pois a cabeça ficava em outra dimensão tentando  buscar sentido e distração num mundo sem som. Não sinto a mínima saudade disso depois que tive a chance de conhecer o outro lado.

Dessa vez, me vi numa situação muito pior. Mas eu ouvia, então pude estar no comando de tudo o que aconteceu. Entrei na ambulância que levou minha mãe para o hospital e mesmo com aquele barulho ensurdecedor da sirene conseguia ouvi-la chamando meu nome lá atrás.

Ao entrar na emergência, soube de tudo o que estava acontecendo sem precisar cutucar ninguém e perguntar. Quando ela deu entrada na UTI, lá fui eu para uma longa entrevista com a enfermeira-chefe sem titubear e sem pronunciar um “Hãn?” sequer.

No outro dia, passei mais de três horas pendurada no telefone resolvendo mil burocracias. Quando pude fazer a primeira visita, conheci o som dos monitores da UTI: um pi, pi, pi, pi de enlouquecer qualquer um.

Falei com os médicos, plantonistas, amigos que foram visitar. Vivi e venho vivendo (ela continua internada) essa experiência tenebrosa através desse presente que é o implante coclear. Ouvindo, participando, interagindo, entendendo tudo o que acontece, sem precisar pedir ajuda a ninguém.

Se eu ainda não ouvisse, tudo seria diferente

Primeiro, eu não entenderia nada do que a minha mãe fala, pois a fala dela está arrastada e não articula os lábios como antes.

Segundo, não sei como obteria as informações já que os médicos só usam telefone para falar – SMS e Whatsapp nem pensar.

Terceiro, não sei como teria resolvido tanta burocracia se não falasse no telefone. Depois de viver isso percebi de uma vez por todas que as pessoas não têm paciência alguma e nem estão interessadas em facilitar a sua vida caso você seja diferente.

A vida como surda que ouve

Até agora, em 1 ano e 7 meses de implante coclear, foi a primeira situação apavorante que vivi ouvindo. Agora caiu a ficha da dimensão da autonomia e da independência que o implante coclear me devolveu.

Me senti segura, capaz, apta a resolver qualquer coisa. Me senti uma adulta e relembrei do quanto me sentia uma criança até os meus 31 anos.

Em termos de segurança, pensem comigo: pude ouvir minha mãe pedindo socorro, ligar para o SAMU, ir junto na ambulância, resolver tudo no hospital. Não gosto nem de pensar de como isso tudo teria se sucedido se eu não ouvisse.

O título do post diz ‘Os sons de um hospital’. Eles ficaram gravados na minha memória para sempre. Os pi, pi, pi dos monitores. Os sussurros dos enfermeiros. A chamada para as visitas dentro da UTI. O entra-e-sai de gente pelas catracas. O som da respiração mecânica dos pacientes entubados. O som das macas saindo com cadáveres de dentro da UTI. O som da voz da minha mãe.

Sempre senti muita certeza da minha decisão de fazer implante coclear mas, após essa experiência, tive também a certeza de que ele me devolveu TUDO.

Antes, quando falava isso, achava que poderia ofender alguém ou soar prepotente. Mas essa é a verdade.

 

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