Acessibilidade Crônicas da Surdez Deficiência Auditiva

Deficientes auditivos também viajam

Deficientes auditivos também viajam! Já escrevi um post que era uma Carta Aberta de uma Surda aos Aeroportos Brasileiros, lembram? Como viajo bastante, presto muita atenção aos detalhes das viagens que envolvem a perda auditiva. Depois que li que o número de surdos e de pessoas com outras deficiências no mundo inteiro é igual à população da China não consegui parar de pensar no quão mal atendido a maioria de nós é no que toca ao nosso lazer durante as viagens.

Muitos momentos que são prazerosos e felizes para outras pessoas são o exato oposto para nós, e isso é péssimo, pois também pagamos passagens de avião, hotéis, restaurantes, etc. Gastamos o mesmo dinheiro que os ouvintes, mas temos nossa experiência prejudicada pela falta de acessibilidade. Em muitas situações meu sentimento foi o de que as pessoas não se importam conosco e as empresas agem como se pessoas que não escutam simplesmente não existissem.

NOS AVIÕES

É uma raridade encontrar uma companhia aérea acessível a quem não escuta ou escuta mal. O entretenimento de bordo, em 90% dos casos, não tem legendas. Também é raro encontrar avisos de segurança e propagandas que passam nas TV’s dos aviões com legenda. Não existe tecnologia que faça closed caption nas telas em frente às poltronas do que o piloto fala pelo alto-falante. Em resumo: não escutar ou escutar mal dentro de um avião nos faz ter um certo pânico de viajar sozinhos, pois precisamos ficar adivinhando as coisas.

Os comissários também são despreparados para lidar conosco, e se você avisar a companhia aérea sobre o fato de que não escuta, eles nada farão. Eu já avisei, e o resultado foi me colocarem na fileira ‘especial’ ao lado das mães com filho no colo e um tapinha nas costas.  Até hoje, mesmo com o implante coclear e ouvindo melhor, me sinto angustiada quando eles começam a chamar para o embarque, pois é difícil entender dependendo do som e da acústica do aeroporto. Na verdade acho péssimo o jeito como chamam, até para os ouvintes – o jeito correto seria através de um painel eletrônico em frente ao portão, assim até mesmo os ouvintes não sofrerão para entender.

A companhia aérea perfeita para mim teria ótimo atendimento via chat pelo site, closed caption de tudo o que é dito pelo piloto e comissários no vôo, entretenimento de bordo com legendas sempre, comissários que saibam lidar com surdos de qualquer tipo, e painel eletrônico para chamar para o embarque.

NOS HOTÉIS

Esses dias vi um hotel novo se gabando nas redes sociais de ser acessível. Perguntei se era acessível aos surdos e a resposta foi: “Como assim? Nós temos rampas, quartos acessíveis a cadeirantes!“. A grande verdade é que 99% das pessoas lê ou ouve ‘acessibilidade’ e pensa apenas em rampas para cadeira de rodas. Pois bem, já passei uma infinidade de perrengues em hotéis, pois tudo está condicionado a duas coisas complicadas a quem não escuta: uso do telefone e batidinhas na porta.

Estive no Canadá há pouco tempo e o hotel tinha alto-falantes para avisos dentro dos quartos. Houve um princípio de incêndio, e minha sorte foi que o Luciano estava comigo no quarto, pois quando deram o aviso eu estava sem implante coclear (tinha acabado de sair do banho). Quando não usava IC e queria pedir serviço de quarto, precisava me arrumar e descer até o lobby para solicitar, isso quando não descia de pijama mesmo! Quando estava sozinha e o serviço de quarto chegava, ou não ouvia a batida na porta, ou colocava uma cadeira ao lado da porta entreaberta e ficava esperando. Ninguém merece passar por isso, não?

O hotel perfeito para mim teria um chat ou whatsapp para comunicação com a recepção, um aviso luminoso para sinalizar a chegada de alguém ou batidas da camareira ou de qualquer pessoa na porta, elevador com T-Coil (muito comum nos elevadores de prédios públicos americanos), avisos de incêndio escritos através da TV do quarto, TV’s sempre com legendas e despertador vibratório à disposição dos hóspedes na recepção.

NOS RESTAURANTES

Eu amaria encontrar um restaurante que pensasse na acústica no seu projeto, afinal, nem todo mundo tem a audição perfeita. Detesto restaurantes que colocam música para tocar a todo volume, escurecem o ambiente e só fazem reservas pelo telefone. Se não fosse pedir demais, amaria encontrar um restaurante que tivesse uma área de reservas prioritárias para quem escuta mal, com mesas com ótima iluminação e quase nada de barulho, além, é claro, de garçons treinados para lidar com clientes com deficiência auditiva.

E acho um mico lugares que ainda hoje só aceitam reservas pelo telefone! Imagina se um sheik árabe bilionário surdo quer reservar ele mesmo para uma comitiva de 50 pessoas no melhor restaurante de Paris e não tem como fazer isso pelo site, whatsapp ou SMS? Todo mundo merece a mesma consideração!

NAS ATRAÇÕES TURÍSTICAS

Já contei aqui que no Museu do Louvre perguntei se deficiente auditivo tinha desconto e fui conduzida junto com a minha avó para uma entrada especial e não pagamos ingresso? Semana passada, no Forte de Copacabana, fiz a mesma pergunta e fui informada que qualquer PCD e o seu acompanhante não pagam. Mas também já passei por inúmeras situações nas quais perguntei do desconto e recebi de volta um: “Para quem? Você? Mas você não tem nenhuma deficiência!“.

Aqui no Rio já precisei chamar o gerente num cinema pois a vendedora de ingressos, quando pedi o ingresso com desconto para PCD, me analisou dos pés à cabeça e disse que eu não era deficiente pois não estava usando nenhum tipo de aparelho no ouvido esquerdo! O grande problema é que falta uma identificação universal para pessoas com deficiência que seja aceita em qualquer lugar e em qualquer país. Carteirinha municipal, de passe livre e de sei lá o que não resolve o problema. Quero algo que eu tire uma única vez, como minha identidade, e nunca mais precise me preocupar com isso. Renovar carteirinha que é aceita só aqui e ali uma vez por ano chega a ser humilhante – nunca ouvi falar de deficiência que regride ou melhora.

Para finalizar, acho que nem preciso comentar sobre aspectos como shows, teatro, cinema… Ainda engatinhamos na questão acessibilidade para quem não ouve mas, se cada um de nós bater o pé e exigir isso quando se encontra nas situações citadas acima, as coisas podem evoluir e mudar mais rápido!

69 amaram.

Sobre a Autora

Paula Pfeifer Moreira

Escrevo o Crônicas da Surdez desde 2010, e também escrevo o blog Sweetest Person desde 2007. Sou bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, escritora e empresária. Moro no Rio de Janeiro e tenho 36 anos. Meu diagnóstico é de deficiência auditiva bilateral neurossensorial e progressiva. Tenho Implante Coclear nos dois ouvidos. Em 2013 lancei o livro Crônicas da Surdez (Ed. Plexus) e em 2015, Novas Crônicas da Surdez: epifanias do implante coclear (Ed. Plexus), que já foi traduzido para o inglês.

13 Comentários

  • Sou deficiente auditiva tb como vcs amigas!A minha audição direita é zerada e usi aparelho auditivo na esquerda onde tenho só 40% da audição e a minha vida é exatamente assim!HUMILHAÇÃO!
    É ASSIM QUE ME SINTO!
    Estou com uma viagem marcada e como vou sozinha já penso nos transtornos que vou passar.
    Por varias vezes qdo pedi ajuda dizendo que ñ escuto me trataram comi uma débil mental!
    O ultimo filme que assisti no cinema tem uns 8 anos que foi a histórua da vida do Renato Russo e saí do cinema chorando de trusteza pois ñ ouvi nem 20% do filme e depous disso nunca mais fui num cinema pois mesmo legendado pelo som ser muito alto exacerba demais o xiado que tenho no ouvido sem audição!
    Não é uma vida fácil.
    É triste não ouvir o sim do mar como é o meu caso.Todo barulho em volta mascara o som do mar.
    Depois que perdi a audição tive muita depressão.Me isolava de tudo!Mesmo com minha familia sentada na mesa tidis conversando e eu com cara de paisagem!Me recolho no meu quarto .

  • Sou surda e apouco tempo viajei de Campinas para Juiz de Fora pela companhia Azul. Fui muito bem atendida, pois o funcionário percebeu a falha da minha audição e imediatamente, fiquei com funcionário para me dirigir ao embarque. Isto foi muito bom pois minha família esta preocupada. A Azul quero deixar meu agradecimento. Fui considerada como deficiente fisico e eles tem toda atenção para conosco.

    • Eu sempre costumo avisar as pessoas que não ouço e uso aparelhos, aí o tratamento melhora muito. O meu problema é entender o que as pessoas falam, principalmente com muito barulho. auto falantes. No aeroporto de Campinas como ja comentei, o tratamento é muito bom com pessoas que tenham problemas, Existe uma sala, para quando se aproximar o horário do voo o passageiro ficar, e automaticamente sera levado com um funcionário até o embarque.

  • É isso, eu me preocupo em como pode acontecer essas coisas se eu for sozinha, como eu ou a pessoa irá lidar com a minha deficiência, se eu errar em alguma bagagem, se eu for fazer uma ligação, pedir um táxi… É complicado mesmo.
    E em relação a cinema me entristece também, a maioria dos grandes cinemas não adicionam legendado nas sessões e quando adicionam, colocam em um horário muito ruim, 23:10, 22:00.
    Eu ainda procuro por legendado de Procurando Dory, mas é muito difícil mesmo. Até em São Paulo, que tem uma variedade de cinemas.

  • Olá Paula.
    Amei também seu artigo “surdos também viajam” e como viajam. gostaria de citar que o número de pessoas com deficiência auditiva esta crescendo inclusive entre jovens e simplesmente não há nada previsto em atendimento ou acolhimento por parte das empresas/entidades para lidar com esse público.
    Estive hospedado em um hotel, em Recife e mesmo o pessoal do hotel sabendo do meu problema, passei por situações muito semelhantes a sua, agora no aeroporto realmente é uma bagunça, o embarque, sempre eu falo com alguém que vai viajar para o mesmo destino, me avisar, caso contrário posso embarcar errado.
    É isso.

    • Morgana, entendo o que vc sente e principalmente quando vc diz que com a deficiência física e visual as pessoas são mais solidárias. Sou da opinião de que isso acontece porque a deficiência auditiva não é algo palpável, visto a olhos nus, então não causa comoção. Sempre me falam: “Ah, mas vc é só surda! Pior seria se fosse cega!” Dá vontade de furar os dois tímpanos da pessoa pra ver o tanto que é legal ser “só” surda!
      Há um mês e meio ativei os meus implantes, mas só fui atrás disso porque passei por um situação desagradabilíssima no meu trabalho. Sou funcionária pública do STF e resolvi fazer um curso online oferecido pelo meu órgão sobre Feedback e me surpreendi quando o curso se iniciou e era todo com vídeos dublados de algum reality americano SEM LEGENDAS. Além disso, não tinha nenhum tipo de material escrito para acompanhamento. Entrei em contato com a Seção de Capacitação e o instrutor online e as respostas que recebi foi: “foi divulgado que o curso seria todo assim e você já tinha ciência”. Do instrutor recebi um: “Já tentou um fone de ouvido ou aumentar o som? Faz um esforço! Sei que você consegue!” Esse fato deixou claro pra mim como as pessoas enxergam a surdez: não é algo tão ruim, é falta de boa vontade ou esforço. Como o órgão que cobra pelo valor do curso em caso de desistência ou reprovação, resolvi do meu jeito: dei um PITÍ e acionei logo o Diretor-Geral alegando que eu não tinha como saber que o curso não era acessível só para deficientes auditivos porque não divulgaram isso. Cancelaram sem me cobrar nada, claro, mas nota um certo ressentimento do pessoal do treinamento comigo. Danem-se! Por mim podem até se matar se quiserem! Mas cansei de ter paciência! Depois de uns bons meses chorando deprimida, me irritei e fui atrás do implante. Melhor coisa que fiz na vida. A adaptação não é fácil, mas já passei por coisa pior, então aguento! Boa sorte pra vc, viu? Beijos!

  • Bahhh, a gente passa por cada uma…
    Adoro ler o que escreves pois assim não me sinto tão “bicho estranho”. Sou de cidade pequena bem no finzinho do RS, aqui td é mto lento, quando chega.
    Já passei por diversas situações difíceis pra começar qdo pedia emprego, uso aparelho auditivo a mais de 20 anos (tenho 47) e a resposta sempre era negativa, tentei me aposentar mas surdez só aposenta se for surdo d nascença q ñ é o meu caso. Tenho perda auditiva bilateral neurossensorial de grau moderado á profundo.
    Agora trabalho pra uma firma que tem projeto com a prefeitura e só contrata pessoas com deficiência (faz mais de 2 anos) mas fazia mais de 20 q estava desempregada. Dias atras eu estava na rua fazendo meu trabalho e uma pessoa me disse q eu tinha passado por ela pelo outro lado da rua e ela me chamou e eu me fiz q não tinha visto e não falei com ela e eu disse pra ela mas a senhora sabe q sou surda, uso aparelho, não te ouvi mesmo ela disse que eu tava me fazendo e q eu sou meio “doida” e fazia sinal com o dedo em volta da orelha e olhava pra outra pessoa q estava comigo, eu disse que quando ela quisesse chamar minha atenção q sacudisse os braços ou se atirasse na minha frente e ela disse q eu tava debochando dela. Quando cheguei no trabalho meu emocional tava tão abalado que não conseguia contar pro meu superior. Mas graças a Deus ele entendeu e viu que eu não tava de má vontade com a cliente.
    Tenho passado por situações bem ruins mas agora sei que o problema não é meu e sim do atraso e descaso das pessoas. Comento muito com minhas filhas que com o ceguinho e o cadeirante tudo mundo agiliza mas os surdos ainda não foram reconhecidos como deficientes.
    Obrigada por tua página ela me ajuda muito a superar essas dificuldades pois até pouco tempo eu achava que só eu era “a Estranha”.
    Um grande abraça á ti e a todas(os) que passam por esses perengues.

    • Morgana, entendo o que vc sente e principalmente quando vc diz que com a deficiência física e visual as pessoas são mais solidárias. Sou da opinião de que isso acontece porque a deficiência auditiva não é algo palpável, visto a olhos nus, então não causa comoção. Sempre me falam: “Ah, mas vc é só surda! Pior seria se fosse cega!” Dá vontade de furar os dois tímpanos da pessoa pra ver o tanto que é legal ser “só” surda!
      Há um mês e meio ativei os meus implantes, mas só fui atrás disso porque passei por um situação desagradabilíssima no meu trabalho. Sou funcionária pública do STF e resolvi fazer um curso online oferecido pelo meu órgão sobre Feedback e me surpreendi quando o curso se iniciou e era todo com vídeos dublados de algum reality americano SEM LEGENDAS. Além disso, não tinha nenhum tipo de material escrito para acompanhamento. Entrei em contato com a Seção de Capacitação e o instrutor online e as respostas que recebi foi: “foi divulgado que o curso seria todo assim e você já tinha ciência”. Do instrutor recebi um: “Já tentou um fone de ouvido ou aumentar o som? Faz um esforço! Sei que você consegue!” Esse fato deixou claro pra mim como as pessoas enxergam a surdez: não é algo tão ruim, é falta de boa vontade ou esforço. Como o órgão que cobra pelo valor do curso em caso de desistência ou reprovação, resolvi do meu jeito: dei um PITÍ e acionei logo o Diretor-Geral alegando que eu não tinha como saber que o curso não era acessível só para deficientes auditivos porque não divulgaram isso. Cancelaram sem me cobrar nada, claro, mas nota um certo ressentimento do pessoal do treinamento comigo. Danem-se! Por mim podem até se matar se quiserem! Mas cansei de ter paciência! Depois de uns bons meses chorando deprimida, me irritei e fui atrás do implante. Melhor coisa que fiz na vida. A adaptação não é fácil, mas já passei por coisa pior, então aguento! Boa sorte pra vc, viu? Beijos!

  • Teatro para mim é icônico: vamos ver: Teve aquela comédia que fui com minha esposa, de tão engraçada, acabei cochilando por não entender nada. Pior foi quando distraído, fui arrastado para o palco por uma atriz (naquele esquema de interagir com a plateia) e um dos atores começou a fazer perguntas e eu com cara de perdido, justamente porque estava perdido.

  • Querida Paula:

    Sou sua fã desde quando você não o IC. Amei o artigo sobre Surdos Também Viajam. Você escreveu justamente como é na nossa realidade… Sou do time das que escutam mal, e oralizada, e já encarei viajar sozinha de avião, e o único problema, foi aquela dor que alguns passageiros sentem por causa da pressão. Fora isso, até me surpreendi quando na hora do embarque eu entendi o que falavam ao microfone aqui e ali, mas me saí bem. Viajar de ônibus foi uma decepção, pois falei para o organizador da excursão do meu problema, apenas para no caso dele falar, ou até mesmo me chamar e eu não ouvir… o cara falava a toda hora para as pessoas, fazendo gestos apontando para mim, e para suas orelhas… as pessoas entendiam que ele estava dizendo que eu “não batia bem”…e me deixava super constrangida…

Deixe seu comentário